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O narcisismo exacerbado que pode levar à falência

Publicado em 29 de May de 2017 por Giovanna Henriques |COMENTE

Por que líderes renomados entram em decadência?



Texto Paulo Aziz Nader | Adaptação Giovanna Henriques | Foto Shutterstock

O que leva líderes tão calejados e renomados a perderem a efetividade? Por que seus desempenhos não se sustentam e eles levam as suas organizações ao caminho das perdas?A resposta é mais simples do que parece: eles pararam de olhar para si. Pararam de questionar se estavam no caminho certo. Deixaram-se tomar conta por uma autossuficiência, provavelmente baseada em um certo narcisismo (que todos nós temos, querendo ou não), e reforçada por uma manada de apoiadores incondicionais. Caíram na armadilha de si mesmos. Talvez o fato mais assustador disso tudo é que todos nós estamos sujeitos– mais do que imaginamos – a seguir por esse caminho.A boa notícia é que já existem estudos suficientes que mostram com certa clareza o que acontece com essas pessoas. Sabendo disso, fica mais fácil prevenir um eventual deslize, mantendo assim a performance em alta.


Ultimamente o mundo tem visto a decadência de diversos líderes do setor privado, antes tidos como referência de eficiência e liderança. Adorados e reverenciados por muitos, alguns tiveram seu status elevado a quase “semideuses” aos olhos dos seus funcionários e da sociedade em geral. Marcelo Odebrecht, Eike Batista, André Esteves, Sergio Gabrielli, Joesley Batista, entre muitos outros, saíram das capas de revistas de negócios, onde eram reverenciados pelos seus pares, para estamparem as colunas policiais. Heróis tornaram-se vilões.

Mas a lista não se resume a suspeitos e condenados de cometerem crimes. Há diversos exemplos de profissionais de sucesso que “perderam a linha” em sua gestão. Olli-Pekka Kallasvuo, então CEO da Nokia, liderou a empresa no seu declínio de líder global em tecnologia para uma semifalência em menos de cinco anos. Carlos Ghosn, então responsávelpor reerguer a Nissan das cinzas, tido como um “guru” entre seus pares, envolveu-se com diversos escândalos enquanto CEO da Renault, levando a empresa a apresentar resultados duvidosos durante certo período de sua gestão. Até mesmo os resultados de Abílio Diniz como presidente do conselho da BRF vêm sendo questionados por alguns.

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O erro principal é um líder acreditar que nenhuma situação pode fugir do controle

 

1) Falta de atenção aos nossos próprios fatores de risco


Uma autopercepção acurada é uma das principais características de pessoas com alta Inteligência Emocional. É com ela que nos percebemos com olhar crítico, notando nossas emoções e nossa maneira de agir. Infelizmente, muitas pessoas se esquecem de olhar para o que chamamos de riscos de descarrilamento, ou seja, aquilo que está em nós e que pode, um dia, se tornar um problema real.

Executivos de sucesso tendem a sofrer mais com essa questão. Muitos, acostumados como sucesso, não se permitem entrar em contato com esse seu lado mais obscuro, com medo do que podem ver. Em muitos casos, há uma defesa do indivíduo que o faz acreditar que tudo está sob controle, e que “isto não vai acontecer comigo”. Ora, todos nós temos as nossas “sombras”, e quem as conhecer mais intimamente terá mais chances de gerenciá-las.


2) Excesso de certeza

 
Alguns líderes acreditam que devem ter a resposta para tudo. Muitos se creem até onipotentes em tomadas de decisões. Isso pode se manifestar de diversas maneiras. O medo inconscientede não ser necessário (“se eu não tiver a resposta para tudo, eu não tenho valor”) e a soberba (“estou nesta posição justamente porque eu sei mais do que todas as outras pessoas”) são exemplos comuns. Independentemente da forma, quando isso acontece, tais executivos deixam de se engajarem discussões reflexivas e adaptativas.

Deixam de procurar a melhor solução para cada desafio, para oferecer a única solução que eles têm para oferecer. Ora, se a principal função de um executivo é tomar decisões para a sua organização, não fica difícil de entender por que algumas delas estão longe do ideal. É também muito comum que isso venha acompanhado de outro problema: eles não aceitam ser questionados em suas decisões. Alguns até levam isso ao extremo, demitindo quem o faça quase que em um acesso de paranoia. O que me leva ao próximo ponto...


3) Falta de desafiadores

É extremamente comum que certos executivos se cerquem apenas do que eu chamo de pessoas “sim, senhor”. São seguidores incondicionais, que estão ali para suprir uma necessidade narcisista do seu líder de estar cercado de pessoas que bajulem e aplaudam incondicionalmente todas as suas atitudes. E isso não é uma surpresa, já que todos nós tendemos a gostar de quem tem as mesmas percepções que nós. O problema é quando isso se torna exagerado, o que sempre acontece sem que o executivo perceba. Aliás, uma das grandes dificuldades de alguém que apresenta comportamento narcisista é a incapacidade de ver além de si mesmo, cegando-o para qualquer opinião que não seja igual à sua. Somando isto ao comportamento agressivo para com quem o desafia, citado acima, mesmo que os seus seguidores tenham opiniões diferentes, eles não as compartilham por medo de sofrerem consequências negativas.


4) A armadilha do poder


Já ouvimos muitas vezes que “o poder corrompe”. Obviamente não é possível generalizar, mas é fato que existem diversos fatores ligados ao poder que pode nos corromper – na maioria das vezes inconscientemente. O poder muitas vezes está atrelado ao respeito alheio. Muitos desses executivos supracitados eram muito respeitados e admirados. Não há nada de errado em querer ser admirado, mas há um problema sério quando o amor próprio vira soberba ou vaidade excessiva. Nestes casos, o executivo passa a ter medo de perder este status “diferenciado” e voltar a ser um “reles mortal”.

Imagine um alto executivo acostumado a aparecer em colunas sociais, navegando em seu iate ou voando em seu jato particular, de repente ter que tomar uma decisão que, apesar de ser pertinente e correta para a sua organização, acarretaria uma perda momentânea dessas regalias (por exemplo, cortar o próprio salário ou vender o jato corporativo). Provavelmente qualquer um de nós que tivesse caído nessa armadilha ficaria incomodado.

O problema é que, se não lidarmos abertamente com este incômodo e tomarmos uma decisão mais consciente, essa armadilha logo vira uma areia movediça que suga os resultados das nossas organizações. Quando percebemos, já estamos apenas com o pescoço para fora (ou, em alguns casos, sentados na cadeira do réu de um processo criminal). Não somos invencíveis, independentemente do sucesso que alcançamos. Felizmente, podemos aprender com o erro dos outros e aumentar as chances de sucesso e as chances de manutenção deste sucesso. Os resultados da sua organização agradecerão.


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